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Balaão e a Jumenta

Encontrei no site da St Andrews Park Road Presbyterian Church uma mensagem especial sobre o trecho bíblico que fala de Balaão e da jumenta, no livro de Números, e resolvi traduzir.

O original está aqui, ó: https://parkroadpres.org/balaam-and-the-donkey/

 Lá vai...


Balaão e a Jumenta

 No deserto, Livro de Números
 Números 22.20-35

“Naquela noite Deus veio a Balaão e lhe disse: ‘Visto que esses homens vieram chama-lo, vá com eles, mas faça apenas o que eu lhe disser’.
21Balaão levantou-se pela manhã, pôs a sela sobre a sua jumenta e foi com os líderes de Moabe. 22Mas acendeu-se a ira de Deus quando ele foi, e o Anjo do SENHOR pôs-se no caminho para impedi-lo de prosseguir. Balaão ia montado em sua jumenta, e seus dois servos o acompanhavam. 23Quando a jumenta viu o Anjo do SENHOR parado no caminho, empunhando uma espada, saiu do caminho e foi-se pelo campo. Balaão bateu nela para fazê-la voltar ao caminho.
24Então o Anjo do SENHOR se pôs num caminho estreito entre duas vinhas, com muros dos dois lados. 25Quando a jumenta viu o Anjo do SENHOR parado no caminho, encostou-se no muro, apertando o pé de Balaão contra ele. Por isso ele bateu nela de novo.
26O Anjo do SENHOR foi adiante e se colocou num lugar estreito, onde não havia espaço para desviar-se, nem para a direita nem para a esquerda. 27Quando a jumenta viu o Anjo do SENHOR, deitou-se debaixo de Balaão. Acendeu-se a ira de Balaão, que bateu nela com uma vara. 28Então o SENHOR abriu a boca da jumenta, e ela disse a Balaão: ‘Que foi que eu lhe fiz, para você bater em mim três vezes?’
29Balaão respondeu à jumenta: ‘Você me fez de tolo! Quem dera eu tivesse uma espada na mão; eu a mataria agora mesmo.’
30Mas a jumenta disse a Balaão: ‘Não sou sua jumenta, que você sempre montou até o dia de hoje? Tenho eu o costume de fazer isso com você?’
‘Não’, disse ele.
31Então o SENHOR abriu os olhos de Balaão, e ele viu o Anjo do SENHOR parado no caminho, empunhando a sua espada. Então Balaão inclinou-se e prostrou-se, rosto em terra.
32E o Anjo do SENHOR lhe perguntou: ‘Por que você bateu três vezes em sua jumenta? Eu vim aqui para impedi-lo de prosseguir porque o seu caminho me desagrada. 33A sua jumenta me viu e se afastou de mim por três vezes. Se ela não se afastasse, certamente eu já o teria matado; mas a jumenta eu teria poupado’.
34Balaão disse ao Anjo do SENHOR: ‘Pequei. Não percebi que estavas parado no caminho para me impedires de prosseguir. Agora, se o que estou fazendo te desagrada, eu voltarei’.
35Então o Anjo do SENHOR disse a Balaão: ‘Vá com os homens, mas fale apenas o que eu disser’. Assim Balaão foi com os príncipes de Balaque.”

Nós estivemos lendo e pregando sobre o Livro de Números.... o quarto livro da Bíblia, que conta a história da jornada dos israelitas rumo à Terra Prometida. É uma história que dá uma grande volta... uma viagem de 40 dias que se tornaram 40 anos...

Uma série de rebeliões advindas da descrença e da recusa do povo de Israel em viver pela fé – é por esse motivo que eles vagaram pelo deserto... e uma geração inteira jamais adentrou a Terra Prometida.

Esse livro inteiro é uma autópsia da descrença.... disseca e analisa a nossa mesma grande fraqueza/defeito fatal, que é o fato de que preferimos controlar, manipular e “dar um jeito” a confiar nos bons intentos de Deus... os quais... convenhamos... muitas vezes não conseguimos ver porque as circunstâncias APARENTEMENTE não são favoráveis... e a fé é a certeza do que não se vê... viver pela fé significa fixar os olhos naquilo que não se vê, e não no visível (2 Cor 4.18)
A fé exige que eu desvie o olhar das minhas derrotas pessoais, dores, momentos difíceis, sentimentos, desânimo e inquietações (os quais podem estar evidentes demais, GRITANDO na minha cara) e ao invés disso ver o que ainda não se vê – as promessas de Deus, e basear a vida no Deus invisível.

A história de hoje se passa com a segunda geração, quando Miriam e Arão já haviam morrido e os jovens israelitas começam a enfrentar o povo que habitava a Terra e precisam confiar que Deus daria vitória a eles. ESSA HISTÓRIA trata de ver o QUE NÃO ERA VISÍVEL.... Aqui, aparecem um personagem pouco convencional, mas bem importante – ele ocupa grande parte do livro: Balaão.
Vamos pregar sobre esse feiticeiro moabita em quatro pontos: 1) Profecia 2) Epifania 3) Ensino e 4) Aplicação

A história de Balaão pode ser dividida em três partes – hoje, vamos dar uma olhada na primeira e a segunda e a terceira serão vistas na SEMANA QUE VEM.

Na primeira parte da história (trecho que não lemos) você aprende que Balaque era o rei de Moabe... e ele estava muito nervoso.

Ele podia ver que os jovens israelitas se tinham multiplicado, formando um grande povo. Eles estavam se preparando para a guerra... Logo eles iriam se mover a oeste pelo reio de Balaque (Moabe) e continuar seguindo a oeste até a Terra Prometida... e Balaque, rei de Moabe, estava com medo.

Ele envia mensageiros aos arredores do seu reino para contratarem os serviços de um espiritualista... um adivinho (Js 13.22)... um feiticeiro/profeta que mexia com espíritos e forças. Eles levam dinheiro. E os mensageiros explicam a situação ao mago Balaão... e meio que inflam o ego dele: “Eu sei que quem quer que VOCÊ abençoar SERÁ abençoado e quem VOCÊ amaldiçoar SERÁ amaldiçoado...” (A propósito – essas palavras são semelhantes às que Deus disse a Abraão em Gênesis 12 – abençoarei os que O ABENÇOAREM... amaldiçoarei os que o amaldiçoarem...”)  Então Balaão diz aos mensageiros, “Esperem aqui”, e consulta o Deus de Israel... e aparentemente eles se conhecem (é por isso que eu alertei, “esse é um personagem pouco convencional” – ele não é Israelita... mas conhece YHWH, o Deus de Israel)... Moabe tinha parentesco com Abraão: ele era o filho incestuosos de Ló (Sobrinho de Abraão... mais tarde na história, a bisavó do rei Davi será moabita), assim Balaão, o profeta, conhecia o Deus de Israel.

E DEUS diz, “Não! Não vá com eles – você não pode amaldiçoar quem EU ABENÇOEI.” Então, no dia seguinte, Balaão diz aos mensageiros, “O SENHOR (YHWH – Deus de Israel) não permitirá que eu vá.” Então, eles reportam a Balaque, o rei de Moabe, que entende essa negativa como uma forma de barganha...e “aumenta o lance” – envia mais líderes... líderes muito importantes que imploram ajuda a Balaão... e lhe prometem GRANDES recompensas... “Dê o seu PREÇO!”... e Balaão fica balançado.

Então, ele diz, “Vou perguntar de novo” e aparentemente Deus responde, “Que parte de ‘NÃO’ você não entendeu?... mas se você insiste... então vá.” Você conhece o ditado, “Tome cuidado com aquilo que você deseja.” E, na leitura de hoje, Balaão decide ir ao encontro de Balaque, o rei de Moabe, e “quem sabe?” Não tiraria pedaço apenas escutar o que o homem tinha a dizer... quem sabe YHWH não muda de ideia e me deixa amaldiçoar esses israelitas... e que mal há em sair para passear... na minha jumenta? E então acontece essa cena famosa. Balaão aparentemente resolve deixar todas as opções em aberto... não planeja desobedecer... “mas vamos ver”.

E o mensageiro da presença de Deus.... uma forma de manifestação divina, “o anjo do SENHOR” – existem passagens no Velho Testamento em que Deus se dá a perceber em uma forma visível... Ele se põe na frente da jumenta e a jumenta, então, vê algo que Balaão NÃO VÊ... VOCÊ PERCEBE A IRONIA?

Balaão tinha poderes de visão espiritual acima da média, mas não consegue ver o que qualquer mula velha vê?

E ELE REALMENTE, REALMENTE não vê... por isso, duas vezes ele bate na pobre jumenta até que finalmente a coitada da besta de carga não consegue se desviar do anjo e se prostra diante dele... e Balaão, furioso, espanca a jumenta PELA TERCEIRA VEZ... Aí um milagre acontece... YHWH (o Deus dos Israelitas e SENHOR da criação) ABRE A BOCA DA JUMENTA e ela pergunta para Balaão, “O que eu fiz para merecer isso?” E Balaão (eu esperaria que ele dissesse “Espera, VOCÊ está falando em língua de gente?”) mas talvez ele estivesse tão atubebado que saiu de si e respondeu, “Você está me fazendo de tolo... se eu tivesse uma espada na mão eu mataria você!” A verdade é que Balaão era quem estava fazendo O  SENHOR de tolo... e a jumenta fala de novo, “Acaso eu tenho o costume de agir dessa maneira? Será que esse não é um sinal que QUALQUER UM deveria estar percebendo? VOCÊ NÃO PRECISA SER UM PROFETA PARA PERCEBER QUE ALGUMA COISA ESTÁ ACONTECENDO AQUI.” E  então, a Balaão, o mestre místico, o grande mago (que na verdade era mais burro que uma mula)... É DADO ALGUM DISCERNIMENTO, uma epifania, seus olhos são abertos: “o SENHOR abriu os olhos de Balaão e ele viu o anjo do SENHOR à frente com uma espada na mão” (Balaão tinha acabado de dizer, “Se eu tivesse uma espada na mão, eu teria matado VOCÊ!” – e aqui está quem tem uma espada!)

Então o SENHOR, que SE PREOCUPA com o tratamento dado aos animais (Jonas 4.11) diz, “Por que você bateu na jumenta três vezes? (“QUAL É a de vocês humanos e suas varas! Já chega! Moisés vacila duas vezes... você bate na jumenta três vezes... já deu!”) “Eu vim IMPEDI-LO de prosseguir porque o seu caminho me desagrada... (33)... A jumenta salvou a sua vida... porque, ao contrário de você, EU TENHO uma espada... mas, por misericórdia... eu permiti que a jumenta visse o que você mesmo não viu e abri a boca dela – para que falasse por mim (ela é mais profeta do que VOCÊ!)” E Balaão entende o que os Israelitas taaaaanto demoraram a entender: ele diz, “EU PEQUEI” (os israelitas levaram 21 capítulos para entender – 21.7) E ao invés de enviar Balaão de volta para casa, o Senhor o manda de volta pelo caminho para conversar com Balaque (rei de Moabe) – ele aprendeu como ser profeta com uma jumenta... e agora ele havia aprendido a falar APENAS o que o SENHOR dissesse (35).

Bom... essa é uma passagem bíblica atípica.... não trata de coisas que acontecem no nosso dia-a-dia (exceto quando assistimos Shrek!) – mas qual é o GRANDE ENSINAMENTO?

Para começar, no mundo antigo, quando se pensava em vida espiritual ou poderes espirituais, via de regra... automaticamente se pensava em KARMA. Ou seja, alguém fazia algo... praticava um ritual... dizia as palavras mágicas... fazia o feitiço certo... preparava a poção certa e quando tivesse feito tudo isso em uma quantidade suficiente, ele obteria a resposta desejada. Era UMA COISA pela outra... Ação e recompensa.

O mensageiro chega com (22.7) “a quantia necessária para pagar os encantamentos mágicos” e quando Balaão diz, “Não!” a resposta automática foi oferecer mais dinheiro... se você quer mais... pague mais! E é por esse motivo que toda adoração pagã uma hora ou outra acaba descambando para o sacrifício de crianças (Miqueias 6.7) – porque é, de todos, o que custa mais caro! (“Não permitam que se ache alguém entre vocês que queime em sacrifício o seu filho ou a sua filha” Dt 18.10 et al)

Contudo, o relacionamento de Deus com seu povo é totalmente diferente. Deus não pode ser coagido, controlado, manipulado ou comprado. Deus se relaciona conosco na base da GRAÇA – NÃO do karma.

Isso não significa dizer que NÃO existam consequências para as ações que cometemos – se você é fofoqueiro e mentiroso, eventualmente terá bem poucos amigos... se você é promíscuo, CONTRAIRÁ doenças venéreas e se desumanizará... se você come demais... é ansioso demais... trabalha de menos... todos nós sabemos que aquilo que fazemos traz consequências.

Mas quando se trata de relacionamento com Deus – nós JAMAIS seremos capazes de mercer o favor de Deus, ou de força-lO a nos ajudar... NÓS NUNCA CONSEGUIREMOS ESCALAR ATÉ O CÉU (por nossa própria moral ou fervor religioso ou performance espiritual) NÓS NÃO SUBIMOS ATÉ ELE (é impossível) – ELE É QUE DESCE AO NOSSO ENCONTRO.

Foi o que ELE FEZ com o seu Povo Escolhido – o povo de Abraão. Eles nunca fizeram por onde ou mereceram o favor celeste. Eles nunca procuraram por DEUS ou O descobriram – ELE OS BUSCOU E SALVOU. Graça/não karma. E a expressão máxima da graça é Jesus Cristo.



Essa passagem bíblica tem sido por vezes retratada nas artes, às vezes traçando um paralelo com a experiência de Saulo na estrada de Damasco quando ELE teve uma epifania e as escamas caíram de SEUS OLHOS – ele foi do karma à graça.


Também me faz lembrar de um outro jumentinho da Bíblia – o que surgiu no momento em que o Senhor da Criação apareceu pessoalmente (não como um simples anjo ou aparição), tornando-se carne... tornando-se MATÉRIA/corpo físico.



Estou me referindo a quando Jesus Cristo, o verdadeiro e melhor Adão, o Verdadeiro Jardineiro (João 20.15), o Rei da Criação, adentrou em Jerusalém humilde e cheio de graça... ELE MONTOU NUM JUMENTINHO NO QUAL NINGUÉM JAMAIS HAVIA MONTADO (Lucas 19.30) bom, se você montar num jumento que nunca foi selado – ele fica louco! Mas quando aquele jumentinho percebeu ESSE É O ÚNICO HOMEM EM QUEM SE PODE CONFIAR, esse é o SENHOR da Criação.... esse é Aquele que saber o que é carregar um fardo horrivelmente pesado. E assim como a jumenta de Balaão, que instintivamente se prostrou diante do Anjo do Senhor, assim também aquele jumentinho xucro no Domingo de Ramos, naquela hora, se sentiu seguro (e mesmo privilegiado) em carregar o Senhor, que entrava em Jerusalém para levar sobre si os nossos pecados. 

Agora, resumidamente iremos para o quarto ponto da pregação (Profecia, Epifania, Ensino e APLICAÇÃO) – Eu paguei uma matéria na faculdade chamada “Religiões Tradicionais”. Era muito interessante. O professor tinha crescido na África do Sul no meio de pessoas que praticavam bruxaria e magia. Ele nos contava sobre as práticas primitivas que elas faziam para pedir aos deuses que mandassem chuva ou que impedissem o gado de adoecer... e tudo parecia tão distante... as salas eram sempre num auditório lotado – então, depois de algumas semanas, naquele semestre... fomos todos gradualmente levados a um momento de epifania – “TODOS FAZEMOS A MESMA COISA”.



Eu primeiro percebi isso na chamada teologia da prosperidade (comum em programas religiosos de TV), quando você dá uma oferta para que Deus te abençoe... e depois, mais sutilmente, na maneira em como nós muitas vezes nos comportamos de maneira a nos certificar de que Deus irá nos abençoar (#abençoado) – quando nós tentamos direcionar Deus e manipular as pessoas para que elas endossem a nossa vontade e, com isso, nos deem aquilo de que precisamos para nos sentirmos bem com nós mesmos e de alguma forma NOS DEEM O SHALOM QUE NA VERDADE SOMENTE PODE VIR DE DEUS... a paz que Deus dá de graça... para aquele que crê. E como nós fazemos sacrifícios... sacrificamos às vezes nossos próprios filhos... então percebi que nossas as crianças estão em risco nessa sociedade culturalmente construída sobre uma base de karma/ vergonha/ competição/ comparação, e não sobre a graça...



Você quer aplicar essa passagem bíblica na sua vida? Uma boa estratégia é pensar por um momento em quem é você nessa história...  Você é Balaque – com medo de forças espirituais, da guerra e do perigo que vê no horizonte e pedindo “me diga o preço, que eu pago, para que eu possa me sentir bem e seguro...” Você é um estrangeiro para o Deus que não pode ser comprado ou manipulado? Você é um estrangeiro para a graça?



Ou você é Balaão... meio que convencido de que o Deus único é diferente disso, mas muitas vezes sendo atraído a pensar conforme o padrão do mundo... mantendo as suas opções em aberto... se você precisa que novamente os seus olhos espirituais sejam abertos, de uma nova epifania, de um novo arrependimento dizendo “Senhor, eu pequei... e vejo agora que Tu és o único Deus, que TU estás aqui e eu não quero Te desagradar... mas andar na tua graça... pela FÉ.”



Talvez a melhor opção seja ser uma mula velha... O que eu realmente preciso e a única coisa que TENHO é o Deus da Criação para me proteger, para ser passado ao fio da espada no meu lugar... para fazer o impossível em mim: abrir meus olhos, abrir a minha boca e me ensinar a falar.

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